quinta-feira, 24 de março de 2011

Felipe, também trazia em seu pensamento tudo que vivera quando conheceu Patrícia. Ela não se tornava única, afinal, seria parte de estatísticas de suas noites; ela não passava de número. Não podia nem se lembrar direito como era tal moça, o que lhe vinha obscuramente à cabeça eram os lábios morenos que tocou. Ambos trocaram números de telefone, mas seria em vão qualquer ligação, afinal, o que se traz de uma noite de bebedeira e muito som, a não ser dor de cabeça acompanhada de uma ressaca? Depois tudo se silenciaria; a música não mais iria tocar, as pessoas não mais iriam se ver. Vazio foi o que restou, o vazio do lugar, vazio do corpo, vazio da alma, vazio da vida.
De volta para a realidade e para a casa, Felipe se organizava para começar a semana. Vendedor de uma importante loja de roupas de grife, era o mais procurado pelos clientes. Profissionalmente, era dotado de um carisma incomparável. Sempre se superava nas vendas, alcançando sempre os objetivos impostos pela empresa. Com seus 23 anos, morava com seu irmão, Carlos, proprietário de uma oficina herdada pelo pai. Na casa em que moravam, ainda eram visíveis as lembranças de infância, algumas fotografias que traziam à tona a família, alguns brinquedos de quando ainda eram pequenos. Para Felipe, eram recordações que deveriam ser apagadas, jogadas fora. Com elas, pôde descobrir e dar valor ao tempo em que realmente era feliz e não sabia. Não que agora não fosse, mas o tempo já tinha levado o colo que dava continuidade para sua caminhada; o carinho que recebia dos pais.
Por um instante, decidiu parar de pensar no passado e resolveu ligar para Patrícia, afinal, havia pedido seu número, estava só e talvez ela fosse uma distração para seu tempo. Voltaria a ouvir a voz que sussurrou em seus ouvidos, no barzinho. Não tinha planos para o fim de semana, poderia então combinar de assistir um filme, ou tomar um drink. Caso ela não aceitasse, a balada seria sua próxima opção. Decidiu ligar, esperando ansioso o doce alô da moça, que foi em vão. Pensou por um instante que ela não o atenderia; decidiu ligar novamente, quando então que ouviu uma voz. (...)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Um ano. Para os que esperam, muito, para os que temem, pouco, mas para os que amam... Ah, mas para os que amam o tempo se torna inexistente, irreal, imperceptível.
Eles frequentavam o mesmo barzinho, ouviam da mesma canção, tomavam do mesmo vinho, mas tinham histórias diferentes. Ele, órfão desde a adolescencia desfrutava dos prazeres que a vida lhe oferecera, para que talvez, seu espírito frio e solitário fosse preenchido. Não sabia amar, havia sido roubado de sua subjetividade e perdido o horizonte de sentidos; como se não bastasse mantinha relações de cativeiros com aqueles que se permitiam. Ela, trazia em seu semblante um olhar dócil, talvez um pouco de simplicidade  ou modéstia, já havia passado pela experiência das perdas em sua vida e ainda podia sentir o frio da noite em que velou a mãe, sustentáculo com qual se apoiava nas horas difíceis. Sabia lutar pelos seus ideais, advogada, trazia consigo mais que uma mulher, um exemplo.
Talvez aquele fosse o lugar errado para um encontro certo. Um encontro no qual ambas as partes deveriam se doar para que se completassem. Todos em volta eram indiferentes, não , os outros não tinham importância, importava somente os olhares que se cruzavam, era um momento único, celestial, foram chegando com todo fogo que lhes reservava no íntimo, para que seus lábios tocassem e todo o universo por um momento parasse. Não importavam os nomes, afinal, a paixão daquele momento corria em suas veias , fazendo com que suas mãos se deslizassem pelos corpos, num beijo no qual se envolvia a terra e o céu. Era dessa forma que Patrícia, se recolhia todas as noites em seu escritório, imaginando e relembrando por vezes aquela noite mais que ardente. Sentia medo, mas já estava amando, e sabia que não conseguiria mais correr.Era tarde, mas talvez fosse este o momento em que realmente encontrasse com seu futuro,  sonho ou pesadelo.Mas seria bom tentar, afinal, quando se ama, não se peca.